Plantação de cafeeiros, na Calheta, a partir de sementes maduras seleccionadas. Antes foram lavadas, para remover a polpa e mucilagem, e secas ao sol cerca de dois dias, para acelerar a germinação. Há quem refira que essa germinação pode ser estimulada também ao deixar as sementes de molho, durante um dia, antes de plantar.
As sementes devem plantar-se de lado (deitadas), a cerca de um centímetro de profundidade, num substrato rico, em pequenos vasos ou canteiros com boa drenagem, cobrindo com terra. Uma mistura de terra com composto orgânico (terra vegetal) é o ideal. O solo deve manter-se húmido, num local quente e com luz indirecta, regando diariamente, até germinarem, o que demora entre trinta a sessenta dias.
Aconselha-se manter a terra húmida, mas não encharcada. Regar diariamente ou consoante a necessidade. Os vasos num local com luz difusa e suave, sem sol direto forte, e com temperatura em torno de 20°C, semelhante ao clima tropical, é o mais indicado.
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Para a produção do vídeo O Café (2025), visitámos alguns agricultores, a norte e a sul, para conhecer a sua experiência, motivações, técnicas de descasque e torragem, bem como as suas opiniões sobre o futuro do café na Ilha da Madeira. Há registos de que o café é plantado na Ilha da Madeira desde o século XVIII. Actualmente, o café ganha mais interesse entre os madeirenses, seja para consumo familiar ou para comercialização.
«Há cerca de 25 anos [o cafeeiro] ainda era frequente na região baixa do sul da ilha. O café madeirense era de excelente qualidade e rivalizava com o de Moca.»
—Elucidário Madeirense (Vol. I, 1.ª edição de 1921)
«O café dá-se muito bem na Madeira. Um homem com uma família assegurou-me que apenas uma árvore produzia café suficiente para o seu consumo caseiro durante todo o ano. Em sabor não é fácil distinguir do café importado, embora não parecesse ter a mesma força e era um pouco amargo, talvez consequência de ter sido apanhado da árvore um pouco prematuramente.»
—Jens Rathke, botanista e zoólogo norueguês (diário da viagem à Madeira, no final do século XVIII: 1798-1799)
«A sua formosa flor branca, parecida à do jasmim, liberta um aroma muito delicado, embora ténue, comparável ao da flor da laranjeira, e cresce em pequenos aglomerados nas axilas das folhas»; «os grãos de café na Madeira são pequenos e parecidos aos de moca [planta coffea arabica], de onde procederam, segundo afirmam os portugueses»; «a totalidade do café colhido é consumido na ilha, onde custa um pouco mais do que o café importado, porque é considerado, com razão, melhor»; «na Madeira o café cresce só na vertente sul e acima dos 600 pés em relação ao nível do mar; em redor do Funchal há muitas pequenas plantações, mas nenhuma grande.»
—Hermann Schacht, botanista e farmacêutico alemão (“Madeira und Tenerife mit ibrer Vegetation”, capítulo “O café (coffea arabica) na Madeira”: 1859)
Agricultores madeirenses entrevistados e respetiva localidade (pela ordem no vídeo): Dalila Cunha, São Jorge; José Branco, São Jorge; Maria Veríssimo, Machico; Pedro Silva, Estreito da Calheta; Rui Sousa, Estreito da Calheta; Carlos Magro, Arco da Calheta; Jorge Cipriano, Funchal.
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Agradecimento a todos os participantes e envolvidos na produção do vídeo O Café.
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Pensa-se que as plantas de café selvagens, espécies de Coffea, eram nativas de uma região do planalto etíope conhecida como Kefa, mas a história exacta da sua origem e domesticação permanece pouco clara, envolta em lendas.
Talvez já no século XV, as plantas de café foram levadas através do Mar Vermelho para o sul da Arábia (Iémen) e cultivadas. Qualquer que seja a verdadeira origem do café, o seu efeito estimulante tornou-o sem dúvida popular na Arábia. Denominadas qahveh khanehs, as casas de café surgiram em Meca no século XV e em Constantinopla (atual Istambul) no século XVI. Tornaram-se locais de encontro populares. O café tornou-se especialmente popular na Turquia e a expansão do Império Otomano levou a bebida a muitos outros locais. Espalhou-se rapidamente e no final do século XVII a bebida florescia em quase toda a Europa. Na Madeira, as referências históricas à plantação de cafeeiros remonta ao século XVIII.
Se até ao final do século XVII, o abastecimento mundial de café era obtido quase exclusivamente na província do Iémen, no sul da Arábia, no século XX, a maior concentração da produção estava centrada no hemisfério ocidental, em especial no Brasil.
Em 2020, os principais países produtores de café eram o Brasil, o Vietname, a Colômbia, a Indonésia e a Etiópia. O interesse pelo café biológico, de comércio justo e cultivado de forma sustentável aumentou no final do século XX e início do século XXI, levando a mudanças nos métodos de produção em alguns locais. O aquecimento global, em particular os aumentos previstos de calor e seca extremos, pode ameaçar a estabilidade da indústria do café, uma vez que os agricultores lutam para se adaptar em regiões vulneráveis.
Apesar de ser chamado de “grão”, o café é, na verdade, um fruto. Os “grãos” crescem num arbusto e encontram-se no centro de uma baga, conhecida como cereja de café. São utilizados dois tipos de grãos de café para consumo: Robusta e Arábica. O Arábica tem uma acidez mais baixa e um sabor mais suave, enquanto o Robusta é mais ácido e amargo.
Cultivo e produção do café
As duas principais espécies de plantas de café são a Arábica (Coffea arabica) e a Robusta (Coffea canephora). A espécie de café Arábica é cultivada principalmente na América Latina, enquanto a variedade Robusta predomina em África. Considera-se que a planta de café arábica produz uma bebida mais suave, saborosa e aromática do que a planta robusta, embora esta última seja mais resistente e, portanto, mais barata de produzir, e tenha o dobro do teor de cafeína do arábica.
Os fatores climáticos mais importantes para o cultivo do café são a temperatura e a precipitação. As temperaturas entre 23 e 28 °C são as mais favoráveis. É necessária uma precipitação de 1.500 a 2.000 mm por ano, juntamente com um período seco de dois a três meses para o Arábica. Enquanto a Robusta pode crescer em altitudes até 600 metros, a Arábica cresce entre os 600 e os 2 mil metros. Esta requer muita humidade e requisitos bastante específicos de sombra.
O café tem sido tradicionalmente cultivado na sombra de outras árvores, o que imita as condições naturais de crescimento das plantas em um sub-bosque florestal. Permite maior rentabilização produtiva da terra e é um método de cultivo mais sustentável. O café cultivado na sombra é considerado mais trabalhoso do que o café cultivado ao sol e produz rendimentos menores. No entanto, ele produz um sabor superior nos grãos e é frequentemente vendido a preços mais altos como um café especial.
Para atingir maior produtividade, muitas plantações de café foram convertidas para a metodologia de "cultivo ao sol", causando o desmatamento de grandes áreas da América Central e outras regiões produtoras de café. Cultivadas como monoculturas, as plantas de café cultivadas ao sol são mais vulneráveis a doenças e, portanto, requerem maior uso de pesticidas do que o café cultivado à sombra. O café robusta é mais bem adaptado como uma planta de café cultivada ao sol do que o arábica.
O tempo entre a floração e a maturação da fruta varia consideravelmente com a variedade e o clima. Para o Arábica é cerca de sete meses e para o Robusta cerca de nove meses. Os frutos maduros da planta do café são conhecidos como cerejas de café, e cada cereja geralmente contém duas sementes de café (“grãos”) posicionadas planas uma contra a outra. Cerca de 5% das cerejas contêm apenas uma semente; chamadas de peaberries, essas sementes únicas são menores e mais densas e produzem, na opinião de alguns, um café mais doce e saboroso. A fruta é colhida à mão quando está totalmente madura e de cor vermelho-púrpura.
As cerejas são processadas desprendendo as sementes de café de suas coberturas e da polpa e secando as sementes. Todos os grãos devem ser removidos das suas frutas e secos antes da torrefação. Três técnicas são usadas para processar o café: o processo seco, ou "natural", o processo húmido (e lavado) e um processo híbrido chamado de método semi-lavado, ou "natural descascado". O café resultante desses processos é chamado de café verde, que está então pronto para torrefação.
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Imagens: café no Estreito da Calheta, Ilha da Madeira
fontes: Enciclopédia Britânica; Nescafé; Ncausa
Vídeo Abelhinha: O Café (na Madeira)
Consta que em antigas casas senhoriais da Calheta existiam plantas de café, para embelezar os jardins. No Estreito da Calheta, encontrámos um artefacto artesanal que, segundo testemunhos, serviria para moer os grãos de café, para consumo caseiro. Descobrimos uma pequena plantação com dezenas de plantas nesta freguesia, com algumas já a produzir café, conforme documentam as imagens. Prova a viabilidade do seu cultivo na nossa Ilha, como potencial de diversificação da agricultura regional.