O inhame é uma planta alimentar cuja parte comestível é o rizoma alongado, tuberculoso e feculento, que é muito apreciada pela população na Região Autónoma da Madeira, neste caso na freguesia do Estreito da Calheta, Concelho da Calheta, onde foram recolhidas as imagens e a informação.
A Semana Santa é a época preferencial em que este prato tradicional é consumido, mais especificamente na Sexta-Feira Santa. O tubérculo cozido é acompanhado de bacalhau, grão-de-bico e molho de salsa. Há quem junte ovos cozidos ou outros elementos ao seu gosto. É habitual também o consumo do inhame frito ou a sua inclusão na sopa. Há quem refira o consumo como sobremesa, com mel-de-cana sacarina, mas trata-se de uma inovação recente.
Os inhames brancos dão-se nos terrenos mais húmidos, os chamados olheiros, pequena vertente com água em abundância ao longo de todo o ano, junto aos ribeiros ou penhascos. Geralmente, são arrancados e replantados em cada ano, nas semanas que antecedem a Páscoa. Antes de cozinhar, raspam-se com uma faca e lavam-se os inhames em água corrente abundante, como uma levada, para evitar comichão nas mãos, por ser uma planta intensa.
Segundo a tradição, o inhame é cozido a lenha numa panela robusta. No fundo da panela, colocam-se vides para o inhame não entrar em contacto direto com o tacho e, no topo, um pano e folhas de couve. É cozido durante cerca de seis horas, adicionando-se nova água à medida que ela verte da panela. É importante a água verter, para que saia uma espécie de baba, que, popularmente, as pessoas chamam de “maldade”, isto é, uma purificação feita na cozedura a fim de o inhame não “picar” ao ser ingerido, ou melhor, para libertar a sua toxicidade. Daí ser preciso ser purificado em várias águas. Quanto ao sal, é adicionado na última água e fervura. É então servido para o almoço da Sexta-Feira Santa. Imediatamente antes de ser consumido, em geral o inhame é descascado. Tem um sabor suave e uma textura semelhante à da batata.
Quanto ao conteúdo nutricional, o inhame é rico em carboidratos e fibra. Contém proteína, potássio, cálcio, magnésio, fósforo, vitamina C, vitaminas do complexo B, entre outros.
O modelo de cultivo e de apanha do inhame nos ribeiros e penhascos está a desaparecer, porque a geração mais velha já não consegue cuidar do acesso aos locais e das condições de água para o crescimento do tubérculo.
Em Produtos Tradicionais Portugueses dá-se conta de alguns dados históricos: “Da espécie Colocasia antiquorum, a planta do inhame parece ter sido introduzida na Ilha da Madeira por volta de 1640. O inhame teve, outrora, largo consumo na ilha, sendo um dos alimentos comuns e utilizados diariamente, na época própria, pela população rural. Daí que fosse chamado o «maná desta terra» conforme inscrição de 1710 numa mesa estilizada com tampo de ardósia e incrustações coloridas, existente na sacristia da Igreja de São Pedro, no Funchal. No catálogo Cousas e Lousas das Cozinhas Madeirenses vem referido um relato de George Forster — companheiro de James Cook numa das suas expedições científicas — sobre a Madeira da segunda metade do século XVIII, no qual se pode ler: «... onde quer que exista uma superfície plana nos sítios mais altos, os indígenas fazem plantações de inhame... As suas folhas servem de alimento aos porcos e os camponeses utilizam as suas raízes para a sua própria alimentação».”
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Agradecimento especial à Sra. Ivone Agrela e ao Sr. António José Neto, pela ilustração de todo o processo de confecção deste prato típico. Em breve, o vídeo será disponibilizado.
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